sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

"Um" de Daniel

Muitas vezes nos deparamos com uma obra que define a própria arte, como acontece frequentemente comigo na fotografia, a minha favorita. Apesar de ter meus filmes prediletos [Pulp Fiction, Lua de Fel, Goodfellas, etc] , poucas vezes tive essa sensação com o cinema e nunca em um filme na sua totalidade, mas somente em algumas cenas. [vide post passado]


Foi então que assisti "8 e 1/2" (1963) do famoso Frederico Fellini e já na primeira cena tive o mesmo pensamento de quando vi o começo de Apocalypse Now [vide post passado(2)]. A fotografia é como eu sempre sonhei e esperei ver em um filme. Enquadramento e contraste perfeitos, como se cada frame fosse uma fotografia digna de premiação. Além de esbanjar na qualidade técnica, a criatividade dos enquadramentos também é algo invejável, sem falar do trabalho feito com os planos da imagem, deixando todas as cenas completas de forma que quando algo se desfecha no plano de fundo, imediatamente o foco muda e o primeiro plano começa a ser o centro das atenções, tendo assim uma direção muito dinânica, o que leva o espectador a entrar e a se sentir parte do mundo que está assistindo. Só senti isso com "8 e 1/2" e com "Os Sonhadores" do Bertolucci, portanto deve ser coisa de italiano; isso de querer ser sempre dinâmico e hospitaleiro, até com os filmes.

O enredo, assim como li em todos os sites da internet, é o de um diretor, chamado Guido, com um "bloqueio criativo" e que busca inspiração enquanto luta contra os seus problemas pessoais em meio a algumas lembranças da sua infância. Na minha opinião pessoal [e tenho certeza de que não é original], este enredo está errado e o diretor não passa por bloqueio algum e sabe exatamente o que está fazendo; está dirigindo o próprio filme em que está atuando como diretor, o "8 e 1/2". Isso fica muito claro em uma cena na qual ele fala que no seu filme terá de tudo, até um marinheiro sapateando, nisso um marinheiro passa pela cena e Guido diz que se ele sapatear, terá um papel no filme, e voilá, temos um marinheiro sapateando no filme. Não dá para ser mais metalinguístico do que isso.

Fica evidente que Fellini foi uma das principais fontes de inspiração do grande David Lynch, principalmente pelo risoto de sonho e realidade, do qual não é possível distinguir as partes tão claramente quanto se pensa à primeira vista. É claro que Lynch leva isso muitos passos adiante, o que se dá para notar só de ler os títulos traduzidos das suas obras.

"8 e 1/2" é um filme brilhante, fruto de uma mente artisticamente genial e que superou todas as minhas expectativas quanto ao cinema como arte, ganhando assim o primeiro lugar no meu ranking de filmes.

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PS: O nome "8 e 1/2" se deve a este ser o oitavo e meio filme feito pelo Fellini, tendo antes feito seis longas, dois curtas [portanto meio filme cada] e um meio longa, no qual ele foi co-diretor [portanto dirigiu só metade].

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Top 10 cenas de filmes (Contém glúten e spoilers)

Pulp Fiction (1994, Tarantino): A parada cardíaca da Mia Wallace.

Magnólia (Magnolia, 1999, Paul Thomas Anderson): Os últimos 3 minutos do filme, em especial os últimos 5 segundos. Genial.

2001, Uma Odisséia no Espaço (2001: A Space Odyssey, 1968, Kubrick): A cena clássica do macaco quando descobre o osso como arma e depois inventa a viagem no espaço. http://www.youtube.com/watch?v=HLNHim0MTdE

A Igualdade é Branca (Trzy kolory: Bialy, 1994, Kieslowski): A cena em que Karol liga para Dominique enquanto ela está fazendo sexo e ela o faz escutar o orgasmo pelo telefone.

Lua de Fel (Bitter Moon, 1992, Polanski): A cena em que Mimi de repente começa a urinar na tv. Como o próprio Oscar(marido) diz no filme, aquilo foi um divisor de águas no seu relacionamento, ele sabia que depois daquilo tudo iria mudar, como realmente mudou, inclusive o filme, que deixa de ser um romance besta para se tornar um dos melhores filmes que já vi.

Os Suspeitos (The Usual Suspects, 1994, Bryan Singer): Os últimos 10 minutos do filme. Quem assistiu sabe do que estou falando.

Poderoso Chefão(The Godfather, Copolla): A cena em que Mike Corleone se torna padrinho do seu sobrinho(acho que é isso) e aceita o discurso do padre sobre rejeitar Satanás e todas as suas obras, enquanto que começa uma série de assassinatos ordenados por ele. http://www.youtube.com/watch?v=lLcBsopWa8w

Poderoso Chefão(The Godfather, Copolla): Quando Mike briga com a mulher porque ela suspeita que ele matou um dos familiares, ele então grita para que ela nunca duvide dele nem questione nada sobre seu trabalho, mas naquela noite ele permitiria que ela fizesse uma só pergunta. "Você matou ele?" "Não" "Graças a Deus...". Mas ele havia mandado matar.

Apocalypse Now (1979, Copolla): Quando terminei de assistir os primeiros 7 minutos deste filme, pensei comigo mesmo "Estou prestes a assistir um dos melhores filmes da minha vida". http://www.youtube.com/watch?v=4ADTPYAEi80

Os Bons Companheiros (Goodfellas, 1990, Scorsese): A cena em que o Tommy chega para espancar o Billy Batts até a morte no restaurante do Henry. Ele bate tanto com a arma que a quebra, enquanto ao fundo rola a música Donovan - Atlantis, um folk inglês muito bom. Gosto desta cena pela maneira com que a música ameniza a violência e gera um contraste diferente, que te deixa meio que "confortavelmente chapado". http://www.youtube.com/watch?v=2oP1NMB_I0s

sábado, 15 de novembro de 2008

Pagação de Pau

Nesses últimos tempos comecei a ler alguns livros mais teóricos sobre fotografia, já que é isso que pretendo estudar pelo resto da vida. Entre eles está o clássico "A Câmara Clara", de Roland Barthes. Dentre as inúmeras coisas que ele diz sobre a fotografia e o que nos faz gostar mais de uma do que outra, está a divisão dela entre o Studium e o Punctum. O Studium, como o nome já diz, é o ambiente no qual fotografia está situada, não só o ambiente físico, mas também o histórico e representativo da situação. Para explicar o Punctum, cito as próprias palavras do Barthes: "Não sou eu que vou procurá-lo, é ele que salta da cena, como uma seta, e vem trespassar-me. (...) O punctum de uma fotografia é esse acaso que nela me fere". Citando Gera Samba, "é o tchan" da fotografia! Vale lembrar que toda fotografia possui um Studium, mas somente algumas possuem um Punctum.

Acho interessante a maneira masoquista com que Barthes vê a fotografia no geral. Para ele, uma foto é a morte de uma realidade passada e nós tentamos identificar traços de nós mesmos nela para reagirmos com emoções já conhecidas por nós, enquanto que o Punctum está lá para apunhalar nossa barriga e quebrar todo nosso senso enquanto tentamos nos encontrar no meio do Studium.

Enfim, estava fuçando o site da Magnum Photos, a maior agência de fotojornalismo que já existiu, e vi uma série de fotos sobre os protestos contra a goblalização, feitos na reunião do G8 em Gênova, na Itália. Eis que encontro essa foto do Thomas Dworzak:

(Clique na foto para ampliar)

O senhor gordo olhando para a câmera com sua roupa de caminhada e a mulher no outdoor atrás me ferem no meio desse Studium repleto de revoluções, policiais, repressão, etc. Ao notar o Punctum é que a fotografia deixa de ser descritiva e se torna algo a mais, algo ou alguém interessante com quem quero "conversar". Para mim, este é ponto máximo que um Punctum pode chegar.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Melhor Clipe do Mundo

Assita sem preconceito, mesmo que não goste do som ou da banda.

Yeah Yeah Yeahs - Y Control
http://www.youtube.com/watch?v=YTL0YqRhxj0

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Blasfemia

Faço agora algo que certamente assegura minha cabaninha ao lado dum lago de lava no inferno. Que os deuses e santos me perdoem!

Top 10:

1) Hey Jude
2) I've got a Feeling
3) Dear Prudence
4) I am the Walrus
5) Baby, You're a Rich Man
6) Rocky Racoon
7) Long, Long, Long
8) She Came in Through the Bathroom Window
9) A Day in the Life
10) It's All Too Much

domingo, 28 de setembro de 2008

Para os Beatlelados

I saw her standing there, little child.
- Martha, my dear, do you want to know a secret? I've got a feeling, getting better, here, there and everywhere...
- All you need is love.
- I´m happy just to dance with you.
- Tell me why.
- Think for yourself... I want you, I wanna hold your hand, I wanna be your man!
- ...
- ...
No reply, I should have known better. I'm a loser...
- You like me too much...
- I need you..
- Don´t bother me!
- Wait... we can work it out.
- You really got a hold on me...
- Money, from me to you! Drive my car...
- You can´t do that! Money can't buy me love.
- Honey, don't! Wait, get back!
- HelloOo! GOODBYE!
- Slow down!!!
- What you're doing?!?
- Act Naturally!
- ... ... HUMM...
- ... ... ... hummmm... a taste of honey...
- HELP!!!!!
- Thank you girl...

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Semi-palíndromos

Todos já vimos algum palíndromo, seja ele simples como "Roma é amor" ou complexo como "Socorram-me, subi no ônibus em Marrocos". Se não notou nada de especial nestas frases, tente ler ao contrário, letra por letra, e verá que são idênticas às frases de quando se lê normalmente. É óbvio que não é fácil construir um palíndromo, mas mesmo assim encontramos inúmeros feitos por aí:

"Amor, me ama em Roma?"
"O Cid é médico."
"O Ivan ama navio"

No entanto, existe um tipo de palíndromo que não é explícito, mas está presente na nossa literatura cotidiana, este é o semi-palíndromo. Vamos analisar a seguinte frase em especial, tirada da música "Nascente" de Milton Nascimento:

"Ardente, pérola do céu refletindo teus olhos"

Um olhar desatento não perceberia nada de anormal no trecho acima, mas observe o que acontece ao "espelharmos" a frase em seguida.

Ardente, pérola do céu refletindo teus olhos sohlo suet odnitelfer uéc od alorép, etnedra

Automaticamente obtemos sem esforço algum um palíndromo completo, o que classifica a frase inicial ou primitiva como um semi-palíndromo. Se pararmos para analisar, vamos perceber que na língua portuguesa existem muito mais semi-palíndromos do que se pode imaginar, basta ficarmos atentos para indentificá-los. Usá-los com sabedoria e liricidade só irá enriquecer nossa literatura.